'tás a brincar comigo?

Manifesto

 

No panorama da mais variada produção artística nacional, temos vindo a assistir a  uma crescente tentativa de incentivo por parte de diversas instituições que ambicionam promover o talento dos jovens criadores. Num sentido inverso, o Estado Português tem vindo a demonstrar intenção em aplicar cortes orçamentais face às necessidades que esta produção reclama e necessita para que alcance um lugar notável, o lugar que lhe é devido na dimensão cultural de um povo.

Estaremos nós a cair no erro de abandonar a ideia de que a Cultura opera como arma de arremesso, instrumento de demarcação de uma nação?

Paralelamente a esta realidade, as instituições que dizem apoiar a produção artística nacional encontram-se, não raras vezes, a desenvolver um falso propósito, no sentido em que consentem (aquando de um contacto próximo a estas) que se assista a um não cumprimento das suas próprias premissas. Aquilo que se tem vindo a verificar parece ser um certo comodismo por parte de alguns organismos públicos, uma certa tendência para se desculpabilizarem ou até mesmo relativizarem a qualidade e o profissionalismo dos serviços que prestam, acabando por justificar certos posicionamentos como a escassez de meios ou instrumentos de acção,  servindo-se, para tal, do subterfúgio da aclamada crise financeira. Porém, a declarada crise financeira tem vindo a anunciar-se um pouco pelos quatro cantos do mundo mais como uma crise de valores, do que uma outra qualquer carência, situação que tende a dilatar-se às mais variadas esferas das sociedades ditas desenvolvidas.

Nesta estratégia de escapatória, poder-se-ão enquadrar diversos organismos espalhados um pouco por todo o país. Sem maior dificuldade, podemos rever uma sublime, mas displicente, atitude de negação ou inadaptação dos princípios elementares que visam promover, divulgar e apoiar os jovens criadores.

A injúria da problemática conjuntura, recai diariamente sobre as nossas cabeças nas mais diversas áreas e contextos de criação artística, e é aqui que o Intocável aparece. O Intocável espelha-se aqui de modo pessoal e personalizado. O Intocável sou eu! É aqui, neste contexto, que me insurjo. Como atitude de contestação a este problema generalizado da promoção artística, do meio e interesses que a alimentam, onde a ordem e o lugar das coisas parece alterar-se para passarem a lidar sob outras condutas que não as que a fizeram vir ao mundo.

Centremos a nossa atenção numa situação particular. O Palácio das Artes-Fábrica de Talentos – projecto da Fundação da Juventude apoiado por diversas organizações (entre as quais a EDP, GALP Energia S.A. e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) – surge no Porto em Dezembro do ano passado e apresenta-se como o mais recente espaço de apoio a jovens criadores.

No passado dia 11 de Agosto de 2010, na inauguração de “Intocável/Untouchable pude assistir a uma mostra inteiramente normalizada de trabalhos produzidos por jovens artistas, todos eles advindos da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A certa altura, apercebi-me de três momentos onde a entediante regularidade se quebrara e se revela ao público uma instalação artística – como que espacialmente tripartida – cuja materialização parece resumir-se à delineação dos contornos das obras, através de fita adesiva prateada sobre os suportes locais do espaço (paredes e chão). Tudo fazia crer que um grupo de artistas optara por não expor o seu trabalho…

Terão recusado expor nas circunstâncias que lhe foram apresentadas? Terão decidido criticar toda esta precária política de promoção artística?

Algo parecia impor-se, quando me deparo com três indivíduos envergando indumentárias de primazia, sobre as quais sustentavam poderosamente uma dissimulação que os convertia em personalidades anónimas. Sem face e lançados no mutismo, tudo se passava entre os três elementos numa metalinguagem de gestos, olhares e acções orquestradas e delimitadas por certos parâmetros.

Periodicamente, fui encontrando esses personagens movendo-se de modo estranho pelo espaço, seguidos incessantemente por um fotógrafo que captava cada um de seus actos, o que os colocava instantaneamente numa posição notória – como que celebridades, figuras que se diferenciam do resto do mundo, o mesmo que se esforçava por se manter indiferente a tal silenciosa perturbação. A indiferença viria a revelar-se uma arma inútil a partir do momento em que um desses elementos interage com o público (mesmo não se integrando nele) oferecendo um papel no qual propunha ao observador remeter-se para um outro tempo e espaço. Um endereço electrónico era a única referência no papel que poderia conter mais informação sobre o conteúdo da obra e daquela tomada de posição.

Todo aquele aparato remetia-nos para um baile de máscaras, uma farsa, um jogo de artifícios, de segredos e dissimulações que parecia utilizar o espaço sarcasticamente – mas de igual modo sensato – como um todo, manipulando-o como um isco para fazer valer os seus ideais.

Por suscitar uma crítica à própria instituição, ao momento inaugural, à futilidade do cocktail, das festas e dos faits-divers (uma renúncia à reputação descabida de indivíduos), sugeria em última análise, uma nota de censura ao mundo desvirtuado da produção e promoção artística.

A meus olhos, todas as relações e dinâmicas que se criaram, tornavam-se facilmente identificáveis, até mesmo compreensíveis, a tal ponto que poderia ser eu que estivesse ali a agir por minha vontade e deliberação… Ou será que era?

Esta sensação de revolta não deixa de ser a ser um sentimento generalizado e partilhado por muitos artistas e criadores que hoje tentam “vingar” no mundo da arte, seja ele de que esfera for. No entanto, a divergência que se encontra na maioria dos casos é a apática postura daqueles que produzem Arte que, exactamente por se manterem inertes, alimentam o sistema minado ajudando-o a munir-se de recursos e estratagemas que ampliam a acção das Instituições de Arte, mais do que propriamente a acção daqueles que A produzem…

Através do silêncio consentem que a exploração continue.

Estarão vocês, criadores, realmente conscientes do poder que têm, para alterar “cirurgicamente” o que de errado sucede por este país?

 

 

 

 

 

 

 

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